No último Censo Demográfico realizado pelo IBGE, o Brasil registrou pouco mais de 203 milhões de habitantes. Deste total, mais da metade — cerca de 103 milhões — é composta por mulheres, representando 51,5% da população. Isso significa que há aproximadamente 6 milhões de mulheres a mais do que homens no país.
A partir desses e de outros dados, podemos começar a responder — ou ao menos refletir — sobre a pergunta inicial. A 10ª Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher aponta que cerca de 30 milhões de mulheres — aproximadamente 30% — declararam ter sofrido algum tipo de violência doméstica ou familiar cometida por um homem. Dentre essas, 67% identificaram o agressor como marido, companheiro ou namorado, no período da agressão. Além disso, seis em cada dez mulheres disseram conhecer ao menos uma amiga, vizinha ou parente que já sofreu violência por parte de um homem próximo, dentro de um ambiente privado.
Esses números mostram como o tema é complexo e como a realidade é grave quando expressa em dados. Desde já, é possível afirmar que os registros oficiais não refletem toda a dimensão do problema.
Segundo o Mapa Nacional da Violência de Gênero, 61% das mulheres que sofreram algum tipo de violência em 2023 — o que representa cerca de 50 milhões — não registraram ocorrência em delegacias. E isso sem contar as tantas outras que nem sequer aparecem nessas estatísticas: mulheres que vivem o silêncio da violência doméstica, suportando caladas e sem despertar a atenção de ninguém.
Dessa forma, não é exagero afirmar que praticamente metade da população brasileira — as mulheres — está em risco, inclusive de morte. Se somarmos os casos registrados às subnotificações apontadas em relatórios diversos, estima-se que mais de 80 milhões de mulheres tenham sido vítimas de violência doméstica e familiar no último ano. E se incluirmos os casos não relatados, mas sabidamente existentes, o cenário torna-se ainda mais alarmante. O que nos leva a perguntar: por que tantas mulheres ainda sofrem com a violência doméstica?
São muitas as causas. Começamos pelo patriarcado, raiz estrutural da desigualdade de gênero. A imposição do controle masculino sobre os corpos e comportamentos femininos é naturalizada em nossa cultura machista, o que dificulta a identificação da violência pelas próprias vítimas. A esperança de mudança do agressor, a vergonha, o medo, a preocupação com os filhos, a dependência financeira, a crença na impunidade e o desconhecimento dos direitos legais também são fatores que contribuem para a permanência no ciclo de violência.
Em 2024, a Base Nacional de Dados do Poder Judiciário (DataJud) registrou, apenas nos cinco primeiros meses do ano, mais de 380 mil boletins de ocorrência de violência contra a mulher — uma média de 2,5 mil por dia. Foram 318,5 mil casos de violência doméstica, 57 mil estupros e mais de 5,2 mil feminicídios. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública mostra um crescimento contínuo dessas ocorrências: entre 2022 e 2023, houve um aumento de 13%, e, no ano anterior, o crescimento havia sido de 11%.
Além dos dados anuais, é possível identificar momentos de aumento expressivo nas denúncias: jogos de futebol, fins de semana, feriados prolongados, festas de fim de ano, e os meses de agosto e setembro. Fatores como ciúmes, separação, gravidez, dificuldades financeiras ou desemprego, muitas vezes combinados ao uso de álcool e outras substâncias, podem desencadear episódios de violência. A convivência intensa em certas épocas do ano também pode aumentar tensões familiares e levar a conflitos.
Durante os meses de agosto e setembro, há aumento significativo nos pedidos de medidas protetivas de urgência, o que pode estar relacionado às campanhas de conscientização do “Agosto Lilás”, promovidas em grande parte dos municípios brasileiros.
Embora reconheçamos os avanços promovidos pela Lei Maria da Penha e pelas campanhas de prevenção, é preciso admitir que ainda existem centenas de milhares de “Marias” espalhadas por todo o Brasil. O país figura entre os piores do mundo em indicadores de violência de gênero.
Outro problema identificado pela Avaliação sobre a Aplicação das Medidas Protetivas de Urgência da Lei Maria da Penha diz respeito à produção de dados mais acessíveis e de qualidade, essenciais para monitorar a efetividade da lei e subsidiar políticas públicas baseadas em evidências.
Não falamos apenas de subnotificação, mas da necessidade de conhecer o perfil das vítimas e dos agressores. Embora a violência contra a mulher atinja todas as raças, classes e idades, entender essas nuances — onde vivem, quanto ganham, qual a escolaridade — é fundamental para desenvolver soluções eficazes.
Sabemos que cerca de 85% dos agressores são homens e mais de 90% das vítimas são mulheres entre 20 e 39 anos. A pesquisa nacional revela que, entre as mulheres vítimas, 79% recebem até dois salários mínimos, enquanto apenas 6% têm renda superior a seis salários mínimos. Ou seja, quanto menor a renda, maior a vulnerabilidade.
Contudo, não podemos delegar toda a responsabilidade ao poder público. A sociedade também tem um papel fundamental: é preciso sensibilizar, conscientizar e acolher as vítimas. Não se trata apenas de apontar culpados, mas de oferecer apoio e se comprometer com a mudança. Só assim poderemos enfrentar o risco que ameaça quase metade da população brasileira: nossas mulheres.


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